estória §127


É como um pedaço de plasticina. Se deixado ao ar muito tempo sem se moldar, acaba por secar. Quando voltamos a olhar para esse pedaço de plasticina, está feio, rijo e com fissuras. E pensamos em voltar a moldá-lo. Mas é então que nos deparamos com um grande problema. Assim que tocamos nesse pedaço e o envolvemos com as mãos, este começa-se a partir aos bocadinhos. Abrimos as mãos e qual é o nosso espanto quando reparamos que está tudo esfarelado. Olhamos um pouco desiludidos e pensamos que não vai haver muito mais a fazer para aquilo poder voltar ao original. O melhor é deitar fora. Por momentos pensamos isto. Mas há algo, que não sabemos bem o quê, que nos retém um pouco. Acabamos por pegar bocadinho a bocadinho e juntar. São bocadinhos tão pequeninos. Ninguém dá nada por eles. Mas ao juntar uns com os outros, a coisa vai tomando forma. Todos esses bocadinhos vão ficando mais macios, mais maleáveis e recomeçamos a ter esperança que aquilo afinal volte ao normal. É uma luz ao fundo do túnel. Mesmo que pequenina, ganhamos força para continuar a juntar todos os bocadinhos. Afinal, há algo que se pode fazer e nada está perdido. Aquele pedaço de plasticina deixado com o tempo vai voltar à sua consistência habitual. E ficamos felizes porque conseguimos isso de volta. Agora sabemos que temos que o continuar a moldar todos os dias. Se não este acaba por voltar a secar e aí, bem, teremos que recomeçar, mais uma vez.
Afinal, todos aqueles bocadinhos insignificantes, que pensávamos não dar em nada... Afinal, se tivermos paciência, coragem e vontade, conseguimos fazer com que se (re)transforme em algo.
É assim com a amizade. É assim com o amor. [Penso eu].

estória §126


Há dias em que tenho a força toda do mundo dentro de mim. [Sinto mesmo como se isso pudesse acontecer.] Hoje estou decidida a ir por um caminho que me agrada bastante. [Ou melhor, retomar.] Na verdade, é o que me deixa mais feliz. E hoje estou certa que quero isso a 100%. Que vou fazer de tudo para voltar a esse caminho. Que vou pegar nas pedras que encontrar e vou construir um castelo. É, não é? Eu sei que há pedras no caminho. Se não houvessem… Bem, se não houvessem, tinha-se continuado este mesmo caminho que se deixou para trás há uns tempos. Por isso, eu sei com o que conto. Sei que as pedras estão lá e que há coisas a resolver. Há que tentar. Se não tentarmos, nunca saberemos o que poderia acontecer a partir dali. 
Hoje, apenas, estou cheia de coragem para fazer isso. [Pena não estares aqui.]

estória §125


Por vezes há medo e inseguranças no meio do que mais desejamos. É normal. [penso]. É normal que se tenha medo de perder esse algo, ou simplesmente medo de se fazer alguma coisa errada no caminho. Porque sabemos que não somos perfeitos e que cometemos erros, alguns sem darmos conta. E isso pode ser a "morte do artista". E por sabermos isso, temos medo e insegurança. Porque não queremos que as coisas corram mal. E  também não queremos sentir-nos assim. Incapazes, que não somos bons o suficiente para algo. Porque, afinal, só queremos algo. Muito.

estória §124


Já era noite, lembro-me. Estava-se numa festa, não sei bem onde. Uma dessas festas de verão, típicas desta altura do ano. Pessoas por todo o lado. Barulho por todo o lado. Luzes por todo o lado. Havia um espetáculo qualquer prestes a começar e as pessoas dirigiam-se para lá. E nós também. Ficámos a porta por momentos. E parecia que mais nada havia à volta. Eu estava feliz de estar contigo. E tu também parecias feliz por estares ali. Olhares cúmplices, sorrisos e abraços fizeram a noite. Não me recordo mais do sonho, mas foi o suficiente para acordar [ainda mais] com o coração apertado de saudades tuas.



estória §123


Existem várias metas ao longo da vida. Todos temos um certo conjunto de metas, algumas já pré-definidas há algum tempo, outras que mudam e deixam de existir, e outras ainda que surgem sem termos pensado nisso. Cheguei a uma dessas metas que tinha definido para mim. E posso afirmar que cheguei feliz. Cansada, com esforço, mas feliz no fim. Foi o que eu quis e, apesar de ser um pouco difícil ao princípio, continuei, tentei e consegui. Sim, orgulhosa de mim mesma. Por ter conseguido e por ver que as pessoas essenciais também ficam orgulhosas. É uma sensação tão boa, que me deixa tão bem e feliz. É bom ver que os outros têm orgulho em nós, que gostam de nós e que nós os conseguimos deixar assim. É bom ter o reconhecimento dos outros e ver a felicidade nos nossos olhos e nos deles.

estória §122


O querer nem sempre é o suficiente. Ela pensava que sim. Mas enganou-se. Ela pensava que quando uma pessoa queria muito, que conseguia isso, que o mundo conspirava todo a favor disso. Mas enganou-se. O querer nem sempre é suficiente quando isso também depende de mais alguém. Porque é preciso dois “querer” para no fim o resultado dar positivo. Pois “mais” com “menos” dá "menos". Por mais que o “mais” seja grande, ele não vence o “menos”. O que é pena. Não basta uma pessoa querer muito, desejar muito isso, afirmar que daria tudo e mais alguma coisa. Isso não chega e não leva a lado nenhum. Ela concluiu isso, com pena. Ela nunca teve tanta pena de o resultado ser “menos”. 

estória §121


Queria ser forte o suficiente para seguir em frente. Não gosto de incertezas. Queria respostas. Não as tens e eu tenho que ser forte o suficiente para seguir outro caminho. É altura de pegar no mapa e ver outra direcção. Ou então arriscar e ir à descoberta. Virar para um sítio qualquer. Novo. E não ficar a tentar ir por um que, por mais que avance, parece que não saio do mesmo lugar. Eu queria muito continuar a ir por este caminho, mas para ir sozinha tenho que ir por outro. Tenho que pensar seriamente nisso. Qual o outro caminho que posso começar a ir.
“E quando à tua frente se abrirem muitas estradas e não souberes a que hás-de escolher, não metas por uma ao acaso, senta-te e espera. Respira com a mesma profundidade confiante com que respiraste no dia em que vieste ao mundo, e sem deixares que te distraia, espera e volta a esperar. Fica quieta, em silêncio, e ouve o teu coração. Quando ele te falar, levanta-te, e vai para onde ele te levar.”       *Susana Tamaro

(Eu não queria nada que fosse assim...)