Porque a vida, a nossa vida, é tanta coisa. Não se resume só a isto
ou aquilo. É repleta. De coisas boas, de coisas menos boas, de coisas más e de
coisas ruins (as quais dispensávamos). Mas ela é cheia de tudo! Não importa o
que são, quem são, como são, que classificação lhes atribuímos num momento. O
que importa é que é. E, por vezes, estamos tão focados em algo, com a cabeça e
o coração sempre a apontar na mesma direcção que ficamos cegos e não vemos o
resto. Não vemos, nem de perto, tudo o que está à nossa volta e que pertence
também à nossa vida. Acontece isto muitas vezes. É como se tivéssemos
“mergulhado” a cabeça na areia, tal como a avestruz. E isso, impede-nos de
vermos as outras coisas, sejam elas boas, menos boas, más ou ruins. Se
experimentarmos tirar a cabeça da areia e olhar ao nosso redor, vamos ficar bem
melhores. Quer dizer, não vai desaparecer o que nos mantinha tão focados. O
buraco onde tínhamos a cabeça não desaparece assim do nada. Mas, vai sendo
tapado com a ajuda do vento que leva a areia ao redor para lá. As outras coisas
(boas, menos boas, más e ruins) que estão à nossa volta, e as quais não víamos,
vão ajudar a desvanecer a tal coisas que nos prendia o pensamento e a emoção.
Vamos desanuviar a cabeça. Vamos saber ter uma postura diferente. E vamos saber
aproveitar muito mais da vida, da nossa vida.
estória §85
Chega a uma
altura em que nos fartamos de tudo. Mas de tudo mesmo. Fartamo-nos do nosso
dia-a-dia. Fartamo-nos da rotina de casa. Fartamo-nos do trabalho de sempre.
Sempre o mesmo sítio. Sempre o mesmo caminho. Sempre as mesmas coisas para
fazer. Fartamo-nos das pessoas com quem nos cruzamos. De todas. De tudo o que
fazem ou não fazem. De tudo o que dizem ou não dizem. Daquelas que são próximas
e das que estão próximas. Daquelas que estão longe e perto ao mesmo tempo.
Fartamo-nos de todas, da maioria ou apenas de algumas. Mas fartamo-nos. E
podemos até nos fartar daquelas que nos amam incondicionalmente ou das que nós
amamos incondicionalmente. Mas não é por mal. E não significa que deixássemos
de as amar. Mas aconteceu naquele momento, fartámo-nos. E mais grave é
pensarmos que a “culpa” é delas. Normalmente, a “culpa” é de nós próprios. Está
cá dentro. E nós não nos apercebemos disso. Apenas achamos que o mundo está ao
contrário. E contra nós. E então, fartamo-nos. E só queremos ter o dom de mudar
tudo, ou algumas coisas, na nossa vida, naquele momento. Porque pensamos que já
não dá mais, já não aguentamos mais. Não aguentamos (nem queremos) nada mais
contra nós, contra o que nós queremos para nós. Queremos que as coisas mudem.
Que as pessoas mudem. Não vemos que o tem que mudar ou quem tem que mudar somos
nós. E até vermos isso e percebermos isso, vamos estar sempre fartos. De tudo.
De todos. Cada vez mais.
Mas não é por
mal. Simplesmente, naquele momento, fartamo-nos de tudo e de todos.
estória §84
O intervalo ainda não acabou. Foi o que disse há tempo. Estava tudo noutras mãos que não as minhas. E continua tudo a estar nessa outras mãos. E eu continuo quieta. Continuo sentada em frente à gaveta. Apenas a fechei um bocado. As coisas mudaram levemente. Demoraram um mês, é certo, mas a coisa está agora com outro aspecto, continuando contudo muito parecida ao que estava. Mas com esta minúscula mudança eu resolvi deixar apenas uma frechinha da gaveta aberta. E aumentei o tempo do intervalo. Vou deixar as coisas assim por um tempo que espero não seja muito demorado. Um mês é muito tempo mesmo. E depois pode acabar por ser tempo perdido. Por isso peço(-te) que não tenha que esperar mais um mês. Não me faz bem. Eu não sou assim tão forte. E depois? Depois custa muito mais andar com as coisas para a frente. Custa muito mais arrumar tudo, pôr um ponto final e fechar a gaveta. Ter de tomar essa decisão por mim (e por ti). Custa porque eu não quero ter de fazer isso. Eu quero que as coisas sigam outro caminho. Quero fechar aquela gaveta sem ter de pôr as (tuas) coisas lá dentro. Quero continuar com elas no meu dia-a-dia.
Por isso o intervalo aumentou. Eu continuo sentada à espera. E as coisas continuam noutras mãos.
Por isso o intervalo aumentou. Eu continuo sentada à espera. E as coisas continuam noutras mãos.
estória §83
Comecei[-te] a arrumar. Abri uma gaveta
das que estavam vazias na grande estante que tenho [em mim]. Não gosto de
arrumar estas coisas. Só gosto de mais tarde as rever e sorrir com tudo o que
me vem à cabeça. Mas para isso terei sem dúvida de [te] arrumar. Hoje abri a
gaveta. Tomei esta árdua decisão. O que custa é o primeiro passo, é o que se
diz. Espero que agora os outros passos venham mais naturalmente e não exijam
tanto de mim. Fico exausta. E só me apetece deitar-me, fechar os olhos e pensar
que tudo poderá ficar bem. Mas a vida não é assim tão fácil. As coisas nem
sempre são como nós gostaríamos. E isto está bem longe de ser o que que queria.
Mas hoje abri a gaveta. E estou sentada em frente dela simplesmente a olhar. E
acabei por decidir que [te] ia dar a última oportunidade antes de arrumar
definitivamente as [tuas] coisas. Espero que este pequeno intervalo seja
aproveitado. E que as coisas tomem o rumo [que tu aches] certo. Eu sei qual
seria esse rumo. Mas não sou eu que vou decidir isso. Não me compete a mim
decidir muito mais coisas. Não vou fazer muito mais. Vou ficar quieta. Deixar o
intervalo passar e depois arregaçar as mangas e arrumar[-te], com o objectivo,
não de [te] esquecer, mas sim de organizar a vida e começar um novo caminho e
mais recordar tudo.
A gaveta
ainda está aberta. E o intervalo ainda não acabou.
estória §82
Fiquei com saudades vossas.
Saudades do grupo. Saudades dos encontros. Saudades de estarmos juntos uns
quantos dias em tantos lugares diferentes que já tivemos. Refilávamos de
algumas coisas.. Ter de levantar cedo. Termos de fazer isto e aquilo. Não podermos
falar. Termos que escrever sobre algo. Reflectir. Mas sabia tão bem ao mesmo
tempo. Sabia bem estarmos juntos. Fazia-me bem. Eu já sabia. Mas agora, que não
há "isso", é que me apercebo realmente o bem que isso me fazia. Era
feliz. Uma criança feliz. Lembram-se? Crianças felizes. Nós. E com isto tantas
histórias. A cantar a porta das casas-de-banho. As broas. O doce de morango.
Andarmos na bagageira do carro. As festas nos quartos sem ninguém saber. As
"SS e as Bandoletes". Os "nossos" nomes. E mais uma data de
coisas. Que saudades! E todas as músicas. O que eu mais quero é ver-te cair..
Estou apaixonada!.. O caminho está dentro de ti.. A estrela polar és tu.. És o
tesouro, és o sorriso infinito.. E tantas, tantas outras. Hoje fiquei mesmo com
saudades*
Saudades
é o que resume tudo isto, todas vocês.
estória §81
"Each second we live is a new and unique moment of the universe, a
moment that will never be again. Do you know what you are? You are marvel. You are unique. In all the years that have passed there has never been another child
like you. Your legs, your arms, your clever fingers, the way you move. You may
become a Shakespeare, a Michelangelo, a Beethoven. You have the capacity for
anything. Yes,
you are marvel."
*Pablo
Picasso
O ser humano
quer ser sempre algo. É esse um dos seus grandes objectivos na vida. Se não o
maior objectivo dele. Nosso. Não queremos ser “um qualquer”. Queremos ser nós.
Queremos saber quem somos. Queremos que os outros saibam quem somos. E tudo
isto logo desde pequeninos. ‘E o que queres ser quando fores grande?’,
pergunta(ra)m-nos tantas e tantas vezes. Às vezes não sabíamos o que queríamos.
Ou então, queríamos muitas coisas. E enquanto crescíamos fomos mudando quem
queríamos ser. Se calhar, olhando agora para trás, não somos isso que
queríamos. Mas garantimos a nós mesmos que somo alguém. Somos sempre alguém a
partir do momento em que fomos concebidos. Mas não é nesse sentido que o ser
humano pensa quando se refere a este assunto de tamanha importância na vida
dele. É ser alguém que tenha algo, que tenha conseguido alcançar algo, que
tenha vingado. E, principalmente, que isso seja visível aos olhos dos outros
que o rodeiam. Isto é ser alguém, segundo o comum dos mortais. É importante
para ele pensar que sim, que é alguém reconhecido pelos outros. Muitas vezes
esta imagem de algum poder que queremos mostrar aos outros que temos chega a
ser mais importante do que na verdade somos mesmo, de admitir isso para nós
próprios. O que somos? O que somos mesmo? Lá o fundo? Qual a “essência”? Qual a
tua “essência”? Será que somos “grandes”, ou melhor “crescidos”, o suficiente
para olhar para nós próprios, para o “nosso umbigo” e admitirmos o que somos na
realidade? De ver que afinal somos o que queríamos quando éramos pequeninos. De
ver que somos algo parecido ou tão diferente do que queríamos ser. E de reparar
que independentemente disso somos nós. Um ser humano igual a tantos outros. Mas
com algo especial. Com uma maneira diferente de olhar o mundo. Com desejos e
sonhos por concretizar. Com metas a atingir. Com todos os defeitos e feitios.
Gostos e desgostos. Que já passou por muitos obstáculos e os venceu. Que já
percorreu um grande caminho. Que já conheceu muitas pessoas. Que tudo isto faz
a sua bagagem. E que tudo isto o faz ser quem é agora. Isto é a essência do ser
humano. E quando ele vir isso, os outros também o vão ver. Sem ele ter que
fazer “por mostrar” aos outros quem é, ou quem quer que os outros vejam que ele
é.
estória §80
Porque nada é perfeito. Nada nem ninguém.
Porque nós próprios não somos perfeitos nem podemos pensar que o somos nem
exigir ou pensar que os outros o sejam. Eu não quero que ninguém seja perfeito.
Mas posso pedir que sejam mais compreensíveis, que não comecem logo a “disparatar”
sem mais nem menos. Será que não dão conta que o fazem?
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