estória §83


Comecei[-te] a arrumar. Abri uma gaveta das que estavam vazias na grande estante que tenho [em mim]. Não gosto de arrumar estas coisas. Só gosto de mais tarde as rever e sorrir com tudo o que me vem à cabeça. Mas para isso terei sem dúvida de [te] arrumar. Hoje abri a gaveta. Tomei esta árdua decisão. O que custa é o primeiro passo, é o que se diz. Espero que agora os outros passos venham mais naturalmente e não exijam tanto de mim. Fico exausta. E só me apetece deitar-me, fechar os olhos e pensar que tudo poderá ficar bem. Mas a vida não é assim tão fácil. As coisas nem sempre são como nós gostaríamos. E isto está bem longe de ser o que que queria. Mas hoje abri a gaveta. E estou sentada em frente dela simplesmente a olhar. E acabei por decidir que [te] ia dar a última oportunidade antes de arrumar definitivamente as [tuas] coisas. Espero que este pequeno intervalo seja aproveitado. E que as coisas tomem o rumo [que tu aches] certo. Eu sei qual seria esse rumo. Mas não sou eu que vou decidir isso. Não me compete a mim decidir muito mais coisas. Não vou fazer muito mais. Vou ficar quieta. Deixar o intervalo passar e depois arregaçar as mangas e arrumar[-te], com o objectivo, não de [te] esquecer, mas sim de organizar a vida e começar um novo caminho e mais recordar tudo.

A gaveta ainda está aberta. E o intervalo ainda não acabou.

estória §82


Fiquei com saudades vossas. Saudades do grupo. Saudades dos encontros. Saudades de estarmos juntos uns quantos dias em tantos lugares diferentes que já tivemos. Refilávamos de algumas coisas.. Ter de levantar cedo. Termos de fazer isto e aquilo. Não podermos falar. Termos que escrever sobre algo. Reflectir. Mas sabia tão bem ao mesmo tempo. Sabia bem estarmos juntos. Fazia-me bem. Eu já sabia. Mas agora, que não há "isso", é que me apercebo realmente o bem que isso me fazia. Era feliz. Uma criança feliz. Lembram-se? Crianças felizes. Nós. E com isto tantas histórias. A cantar a porta das casas-de-banho. As broas. O doce de morango. Andarmos na bagageira do carro. As festas nos quartos sem ninguém saber. As "SS e as Bandoletes". Os "nossos" nomes. E mais uma data de coisas. Que saudades! E todas as músicas. O que eu mais quero é ver-te cair.. Estou apaixonada!.. O caminho está dentro de ti.. A estrela polar és tu.. És o tesouro, és o sorriso infinito.. E tantas, tantas outras. Hoje fiquei mesmo com saudades*

Saudades é o que resume tudo isto, todas vocês.

estória §81


"Each second we live is a new and unique moment of the universe, a moment that will never be again. Do you know what you are? You are marvel. You are unique. In all the years that have passed there has never been another child like you. Your legs, your arms, your clever fingers, the way you move. You may become a Shakespeare, a Michelangelo, a Beethoven. You have the capacity for anything. Yes, you are marvel."
*Pablo Picasso

O ser humano quer ser sempre algo. É esse um dos seus grandes objectivos na vida. Se não o maior objectivo dele. Nosso. Não queremos ser “um qualquer”. Queremos ser nós. Queremos saber quem somos. Queremos que os outros saibam quem somos. E tudo isto logo desde pequeninos. ‘E o que queres ser quando fores grande?’, pergunta(ra)m-nos tantas e tantas vezes. Às vezes não sabíamos o que queríamos. Ou então, queríamos muitas coisas. E enquanto crescíamos fomos mudando quem queríamos ser. Se calhar, olhando agora para trás, não somos isso que queríamos. Mas garantimos a nós mesmos que somo alguém. Somos sempre alguém a partir do momento em que fomos concebidos. Mas não é nesse sentido que o ser humano pensa quando se refere a este assunto de tamanha importância na vida dele. É ser alguém que tenha algo, que tenha conseguido alcançar algo, que tenha vingado. E, principalmente, que isso seja visível aos olhos dos outros que o rodeiam. Isto é ser alguém, segundo o comum dos mortais. É importante para ele pensar que sim, que é alguém reconhecido pelos outros. Muitas vezes esta imagem de algum poder que queremos mostrar aos outros que temos chega a ser mais importante do que na verdade somos mesmo, de admitir isso para nós próprios. O que somos? O que somos mesmo? Lá o fundo? Qual a “essência”? Qual a tua “essência”? Será que somos “grandes”, ou melhor “crescidos”, o suficiente para olhar para nós próprios, para o “nosso umbigo” e admitirmos o que somos na realidade? De ver que afinal somos o que queríamos quando éramos pequeninos. De ver que somos algo parecido ou tão diferente do que queríamos ser. E de reparar que independentemente disso somos nós. Um ser humano igual a tantos outros. Mas com algo especial. Com uma maneira diferente de olhar o mundo. Com desejos e sonhos por concretizar. Com metas a atingir. Com todos os defeitos e feitios. Gostos e desgostos. Que já passou por muitos obstáculos e os venceu. Que já percorreu um grande caminho. Que já conheceu muitas pessoas. Que tudo isto faz a sua bagagem. E que tudo isto o faz ser quem é agora. Isto é a essência do ser humano. E quando ele vir isso, os outros também o vão ver. Sem ele ter que fazer “por mostrar” aos outros quem é, ou quem quer que os outros vejam que ele é.


estória §80


Porque nada é perfeito. Nada nem ninguém. Porque nós próprios não somos perfeitos nem podemos pensar que o somos nem exigir ou pensar que os outros o sejam. Eu não quero que ninguém seja perfeito. Mas posso pedir que sejam mais compreensíveis, que não comecem logo a “disparatar” sem mais nem menos. Será que não dão conta que o fazem?

estória §79


O tempo passa. Os dias tão depressa mostram o sol como logo a seguir o escondem por de trás dos seus braços, e a chuva aparece. Não gosto disso. Do tempo a passar rápido. Da chuva. Não gosto. Gosto dos dias em que está aquele sol que nos aquece a alma. E não se sente o tempo a passar. Parece sempre o mesmo tempo. E uma pessoa fica ali. Sentada no parapeito. De frente para o sol. Com as mãos por baixo das pernas. E fica ali tão quieta. Aninhada em si própria. Parece que tudo pára. Tu e o sol. Olha-o mas fecha os olhos. Basta apenas senti-lo para saber que ele está lá. E sabe tão bem aquele calor. Mas não calor demais. Apenas o suficiente para isso, para nos aquecer a alma. Como se alguém nos abraçasse. É destes dias que eu gosto. É tão bom sentirmo-nos abraçados. Envoltos por algo que apenas se sente.

estória §78


Dois tolos. Esperando que algo acontecesse mas sem fazer nada para que isso acontecesse. Quase como que quando se quer sumo de laranja natural mas não se tem laranjas. É impossível. E quem pensar o contrário é mesmo tolo. Sem laranjas não há sumo. Sem um bocadinho de coragem não há nada.

estória §77


Queres sempre tudo. Queres sempre tudo do teu jeito. És assim e não admites isso. Acontece uma coisa e começas logo a pensar nisto e naquilo. No que poderia acontecer, como poderia acontecer. Pensas, ‘mas toda a gente não quer o melhor para si?!’. Sim, elas querem. Mas tu imaginas muito, fantasias muito para além do que é real, realmente real. Pará. Por favor. É para o teu bem. Mas não queres acreditar nisso. Dizes que não consegues parar de pensar, de querer as coisas todas. E depois com o tempo vês que as coisas não acontecem, vês que nada corre como pensaste, como querias. E isso deixa-te triste. Contentas-te com pouco, é certo. E não é mau. Ficas feliz por algo simples. Mas depois pensas e pensas. Não podes pensar logo em tudo. E depois vais-te abaixo com facilidade. Apesar de tentares não mostrares e disseres que vais esperar e deixar as coisas andarem. Mas isso não é verdade. Tu ficas triste. Ficas triste logo quando alguma coisa, por mínima que seja, não corre do teu agrado. E começas logo a pensar, tal como fazes quando estás feliz. E pensas logo no pior, tal como pensas no melhor que poderia acontecer quando estás feliz. És de opostos. Sabes disso? Já te deste conta? Não, eu sei. Se calhar, estás a aperceber-te disso neste exacto momento. E pensas, ‘no fundo eu já sabia, no fundo eu sabia tudo isto que está aqui’. Pois sabes, eu sei que sim, mas simplesmente não tens coragem para o dizer em voz alta. Tu que até falas alto. Mas apenas consegues “dizer” estas coisas todas no teu pensamento, onde os outros não conseguem ver ou ouvir.

Tens que ser crescida o suficiente e teres coragem, rapariga. Para admitires que és de opostos. Que ficas feliz e triste facilmente. Que tens os sentimentos à flor da pele. Que pensas demasiado também. Fantasias e imaginas muito. Voas demasiado alto e depois a queda é grande, nunca ouviste? Já, eu sei. Queres também tudo e mais tudo. Depois de te contentares com pouco queres sempre mais e mais. E quando não consegues isso, voltas a pensar demasiado. És assim. E já não é defeito, é feito. E isto não te faz bem. Tens que aproveitar tudo no momento e viveres isso. Tu dizes que agora fazes isso, mas continuas a pensar muito no depois. Prendeste muito a isso. Não podes. Deixa-te levar. Deixa as coisas irem. Sem preocupação. Sem imaginar muito. Sem queres demasiado. Para não ficares tão triste facilmente. Vais ver como é melhor. Como depois andas mais contente, mais feliz. Afinal, é isso que se quer da vida: ser feliz.

Tudo isto dito por uma voz. Uma voz dentro de mim.