Contra factos não há argumentos. Vi
factos. Portanto está na hora de seguir. Já estava há muito tempo. Mas só agora
é que eu consegui tomar esta decisão de vez. Pelo menos penso que a vou tomar
de vez. Já é bom. Já o tinha feito há uns tempos atrás. E hoje volto a fazê-la.
Chega de ficar neste sítio. Não é acolhedor aqui. Não sou feliz aqui. Está na
hora de partir. O relógio não pára e já perdi muito tempo com tudo isto. Vou
seguir viagem. Para onde? Não sei. Vou. Só isso. Vou sem me importar até onde
chegarei. Espero que seja um sítio reconfortante. Que me faça feliz. Não
importa quem esteja lá. Sei quem poderá já lá estar. Eles vão estar lá sempre.
E isso dá-me confiança. O resto logo se vê. Mas sei que será melhor. Só pode
ser. É. É mesmo hora de avançar. Dar o primeiro passo. Que é o que custa mais.
Vai mesmo custar. Mas agora tenho um “motivo”. Agora vou aproveitar isso para
ir. E depois desse primeiro e difícil passo tudo se torna mais fácil. As coisas
vão ficando para trás. Cada vez mais longe do coração. Ainda bem. Não quero
mesmo pensar no que poderá vir. Eu sei que é algo bom. Quero acreditar nisso.
Coisas boas atraem coisas boas. É bom pensar que sim. Faz-me sentir mais
confiante e de que vou ser capaz de fazer isto. As malas estão quase prontas.
Também não é muita coisa. Tudo o que necessito está comigo como sempre esteve.
Tudo o resto, o que não faz falta verdadeiramente, fica pelo caminho. Mais um
bocado confiança e esperança, abraços e sorrisos. E estarei pronta. Vai ser
desta. Acreditem em mim.
estória §62
Adoro fotografias. Adoro tirar fotografias
a tudo e mais alguma coisa. Adoro tirar fotografias àqueles e com aqueles que
mais gosto. Gosto de fotografar por um simples facto. Para mim é como se
conseguisse que as coisas sentidas, pensadas, ditas naquele momento em que se
tira a fotografia, é como se tudo ficasse lá, naquele rectângulo de cor ou a
preto e branco. Um rectângulo que pode conter o segundo mais feliz, a batida do
coração mais forte, o abraço mais sentido, o sorriso mais sincero, a força de
esconder uma lágrima. Tudo corre tão rápido à nossa volta, o tempo não pára nem
um segundo. É incrível. E, por vezes, parece que as coisas passam por nós demasiado
rápido. Escapam-nos das mãos como se fosse água. Por isso gosto de fotografias.
Lá está tudo. Num segundo guarda-se tudo. As fotografias têm esse poder
fantástico. Pelo menos para mim. E é verdade. Há uma outra razão para gostar
tanto de fotografias. Eu sou uma pessoa esquecida. Não é defeito, já é feitio.
E as fotografias ajudam. É sempre mais fácil lembrarmos coisas quando vemos uma
fotografia. Olha-se e as coisas vão surgindo na cabeça. Lembramos isto e
aquilo. O que foi dito por nós e por quem estava connosco a partilhar este
momento. Lembramos como estávamos. Se contentes, se tristes, se bem dispostos.
E depois reparamos que estamos com um sorriso na cara. Que a saudade começa a
querer espreitar. Vem a nostalgia. É bom. É uma sensação boa, reconfortante.
Fica-se feliz. Ao olhar-se para o passado e lembrar os momentos passados
através de uma fotografia. Está tudo como que eternizado naquele rectângulo. É
magia. Pura magia. Mas nem sempre uma fotografia nos traz algo bom. Pode-nos
vir ao pensamento um momento mais difícil, mais triste. Mas isso também é bom,
vendo por outro lado. Estamos aqui, no presente, bem, felizes por recordar algo
menos bom que já nos aconteceu. Pois, é isso. Algo que já passou. Ao qual
sobrevivemos, diga-se. Estamos aqui a lembrar esse momento. E podemos escolher
não o lembrar mais. Guardar a fotografia no baú lá em cima no sótão. Ou então
olhar para ela quando calhar e pensar que passámos por aquilo e que agora
estamos aqui felizes. Com as fotografias é assim. Podemos escolher se as
queremos ver, se queremos lembrar aquilo. Dá muito jeito. Com as fotografias
faz-se o que às vezes se gostaria de fazer com a vida, com esses momentos
fotografados. Viver ou não esses momentos, esses rectângulos. Pensar o que
quisermos sobre eles. Escondê-los ou deixá-los na nossa vida. Eternizar algo
bom. Eternizar tudo, tudo.
É magia. Pura magia.
estória §61
Voltei a casa. Estou cá à um dia. Olhei de
relance e parece que estava tudo na mesma. Tudo igual a quando eu me fui
embora. As mesmas pessoas. As mesmas coisas. E foi bom. Foi bom que passado
este tempo as coisas estavam praticamente na mesma. O lugar que tomo como o
mais seguro na minha vida estava quase intacto. E digo quase porque estava
mesmo quase. Não estava totalmente intacto. Totalmente igual. Estava quase.
Praticamente. Parecia igual. Porque na verdade haviam pequenas mudanças. Leves.
Subtis mudanças que me deram o sinal de que a vida aqui continuou sem mim. Sem
isso diria mesmo que tudo parou por aqui com a minha ausência. Mas não. A vida
continua em qualquer parte. Comigo ou sem mim. Mas foi bom ver essas pequenas
mudanças. Esses pequenos detalhes. Uns que aconteceram para nós. Para mim.
Outros que foi para todos. As coisas voltaram ao "normal". A minha
vida voltou ao que era antes. Olha-se de relance para ela e parece que está
tudo na mesma. Que as coisas estão praticamente iguais em mim. Mas não. Também
eu tenho subtis mudanças. Umas feitas por mim própria. A todo o custo. Porque
por vezes tem que ser. E quando se está longe é mais fácil. Outras foram feitas
por outros. E essas não se podem controlar. Querer ou não querer. Elas vêm
direitas a nós e mudam-nos. Afectam-nos. Mas foi algo que provocou uma boa
mudança. Enchi-me de coisas novas. Pessoas novas. Sorrisos novos. Vozes novas.
Tanta mas tanta coisa. Fiquei a abarrotar. As coisas ainda se estão a digerir.
Estes dias ainda servem como processo de adaptação e acomodação de tudo o que
aconteceu. De tudo o que aconteceu lá com o que aconteceu cá. Do meu
"Eu" antigo com o meu "Eu" novo. O antes com o depois.
Ainda está tudo em balanço. Mas este vai ser um balanço com saldo positivo.
Longe dos problemas. Bons momentos. Pessoas fantásticas. Muita saudade. Mas
sabe bem voltar a casa. Ao porto seguro.
estória §60
Sentámo-nos. Não existia mais nada além de
nós, do verde à nossa volta e do azul e branco do céu. O sol espreitava de vez
em quando por detrás das nuvens. Aqui parece sempre que está tímido, que tem
medo de se mostrar. Tal como eu. Permaneci sentada no banco. Com o casaco
vestido, mas não tinha frio. Estava bem. Estou bem aqui. Depois de algum tempo deitei-me.
Pus o capuz na cabeça e deitei-me no banco. Fechei os olhos e deixei tudo.
Quero deixar(-te). Não havia mais nada. Só ouvia o vento. As ovelhas e as vacas
como que a falarem. Até elas parecem que falam. Também gostava que nós falamos.
Nem que fosse só que parecesse. Ouvi por vezes algumas bicicletas e pessoas que
passavam pelo caminho ali ao lado. Mas mais nada. O sol ganhou coragem e
atreveu-se a espreitar. E senti o seu calor. Senti a cara quentinha e as
pernas. Foi bom. Fiquei ali assim sem pensar em nada. Com os olhos fechados, os
braços em redor do corpo. A cabeça vazia. Completamente vazia. Não estavas nos
meus pensamentos. Apercebo-me agora. Abri os olhos por momentos e só vi o céu.
Existiam algumas nuvens. E constatei que nada parara naquele momento. Via as
nuvens a andar. A terra continuava a girar. Tudo continuava a mover-se. Tudo
continuava a acontecer. Mas na minha cabeça tudo estava tão parado. Não existia
nada. Não existias. Nenhum pensamento. Nada mesmo. Só uma coisa veio estragar,
por assim dizer. O vento. Nada é perfeito para sempre. É verdade. Mas aquilo
foi perfeito enquanto durou. Mesmo que tivesse sido só algumas horas. Foi bom
ter acontecido. Comecei a sentir o vento mais vezes. A passar por mim. E fiquei
com frio. Estava mais forte. Estava a mandar-me embora. Sentei-me novamente.
Pus o lenço em redor do pescoço e fechei o fecho do casaco. Estava arrepiada.
Não pensei na altura. Mas agora gostava que me tivesses abraçado. Tinha sido
bom. Mas o objectivo aqui é não pensar e deixar as coisas irem. Por isso,
estava ali só mas não sozinha. Levantámo-nos e começámos a andar de volta para
aqui. Estava tão bem. Sentia-me leve. Leve de ti. Não pensei nem um segundo em
nada de ti.
E isso pôs-me um sorriso por dentro. Que apenas eu podia ver.
estória §59
"Liberta-te,
desprende-te"
*Cathy Kelly
Ao longo da vida, uma pessoa prende-se a diversas
coisas, diversos sítios, diversas pessoas, diversos sorrisos, olhares. E, por
vezes, fica prisioneira autêntica disso, mesmo sem ter a plena consciência
disso, mesmo sei se aperceber. Há coisas que são viciantes para nós. Coisas
boas e coisas.. menos boas! Houve um dia em que me prendi a algo. Quer dizer,
não foi assim só num dia que me prendi a isso. Foi com o correr dos dias.
Vários dias ajudaram a que eu me prendesse a isso. É. Prendi-me mesmo.
Infelizmente - digo-o só agora, pois só agora é que me apercebi disso. Eu
fui-me deixando estar presa. Queria, melhor dizendo. Queria estar presa a isso.
Mas agora descobri que isso é uma daquelas coisas.. menos boas! Infelizmente. E
já o devia ter descoberto à mais tempo. Mas queria estar presa. Não devia de
querer isso. Mas não se escolhe. Não se escolhe as coisas a que nos queremos
prender. E assim foi. E agora, agora consegui olhar de fora. De fora de mim.
Consegui ver ao que me estava realmente a prender. E é, sem dúvida, uma coisa
menos boa! Por isso, resolvi que tenho que me libertar dela. Desprender-me
dela. Tenho que me livrar dela. Tenho. Mas vai ser difícil. Tenho a certeza
disso. Rezo para o conseguir fazer. Peço a tudo e a todos que o processo de
"desprendização" seja fácil, mas principalmente rápido. Começo a
estar farta de estar presa. Agora. Agora penso que começo a estar farta. Que
irónico. Antes só queria estar presa para sempre. Agora quero me desprender da
noite para o dia. Bem, ainda não se quero mesmo. Se quero mesmo a sério
desprender-me. Mas sei que é o melhor. E, por isso, tenho que o fazer. Porque é
o melhor para mim. Tenho que o fazer nem que seja por mim. E só isso é
suficiente. Pois, se eu não o fizer por mim, vou fazer por quem? Depois de
agora vou começar este processo de "desprendização". Vai começar
longe. E desse longe vou vir nova. Diferente. Vou libertar-me e desprender-me
de tudo o que está a mais. Chega de coisas a mais. Coisas a mais é mau. Ocupam
espaço. Fazem pó. E depois tenho mais para limpar. E eu não gosto muito de
limpar o pó.
Está dito. Tenho que me desprender. Agora.
Está dito. Tenho que me desprender. Agora.
estória §58
Os dias
correm. Uns atrás dos outros. Sem pressa de acabarem. Parecem todos iguais.
Infelizmente. Parece que todos os dias é as mesmas coisas. O mesmo ritmo. As
mesmas coisas a fazer. As mesmas pessoas. O mesmo rosto. Os mesmo sentimentos.
A mesma irritação. O mesmo aperto no coração. A mesma vontade de deitar tudo cá
para fora. O mesmo querer falar sem ninguém para ouvir. As mesmas lágrimas ao
canto dos olhos. Por vezes é assim. Por vezes os dias revelam-se desta maneira.
Não há sol e o céu está com nuvens. É. Surge uma raiva e uma irritação fora do
normal e inapropriada. Não se consegue controlar. E apenas se deseja que fosse
diferente. E apenas se quer mudar as coisas em redor. Mas parece não haver
maneira. A luz ao fundo do túnel está longe. Por mais que se caminhe não se vê
nada. Não há nada. Parece que se ficou ali sem ninguém. E por mais que se
queira sair e ver o sol, as nuvens são tantas que se torna tudo ainda mais
complicado. Nada do pouco que se faça ajuda ao passar destes dias. Que teimam
em não ter pressa de acabarem. Porquê que há dias assim? Não eram precisos. Não
mesmo. Só estragam uma pessoa, por dentro e por fora.
Estou farta. Irritada. Está tudo contra. Tudo e todos. Já não posso com nada nem ninguém. Só quero desaparecer. Estar longe uns tempos. E ter alguém que ajude com isto. E no fim, voltar ao que era antes. Estar rodeada por aqueles de quem gosto. Os quais adoro e sinto falta. Mas parece que agora estão longe e ocupados.
estória §57
As pessoas mudam. As pessoas
mudam com o passar do tempo. As pessoas mudam devido ao que lhes acontece.
Devido às experiências que passam. Devido também às outras pessoas. Tudo
contribui para as que pessoas mudem. E este é um processo lento, na maioria das
vezes. Só nos apercebemos da mudança "demasiado tarde" para se fazer
alguma coisa. Com isto até parece que é algo mau. Umas vezes sim, outras vezes
não. Para umas pessoas a mudança de outras é algo mau, para outras não é. Depende.
Depende de quem muda. Depende do que muda. Depende do quanto muda. Depende do
impacto dessa mudança nas outras pessoas. Mudar pode ser bom ou mau. Pode ser
fundamental ou indispensável. Pode ser verdadeiramente importante ou algo
fútil, sem valor. Pode trazer alegria ou tristeza. Pode trazer esquecimento ou
saudade. Mas acho que uma verdadeira mudança é um processo bem lento. Quanto
alguém muda assim como da noite para o dia aquilo é só "fachada". Só
depois de uns tempos é que nos apercebemos como alguém mudou. Como está
diferente. E como está diferente também a sua relação com as outras pessoas.
Porque quando uma pessoa muda, as relações também se alteram. Também
"sofrem" com a mudança. E mais uma vez ou para melhor ou para pior.
Depende. É mau quando vimos que uma relação se altera, quando fica "menos
boa". Quando isso acontece numa relação que era importante para nós. E
isso faz mudar as pessoas mais uma vez. E depois as relações alteram-se. E é
sempre assim. Um ciclo vicioso.
Mas pronto, as pessoas mudam e as
relações alteram-se e isso afecta-nos. Mais nada.
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