estória§157

“Quando se ama, qualquer movimento pode ser em falso e significar morte imediata. Um suspiro, uma palavra fora do contexto, um gesto desadequado, um desabafo, até um silêncio podem mudar a rotação da terra e inverter o sentido dos ponteiros do relógio. Troço da minha tristeza, pinto quadros que não sei o que são só para ficar exausta, finjo que não é nada comigo e espero que, um dia, possa sair da reserva e a minha vida mude, enquanto vou mordendo o silêncio e o desapontamento porque nunca há respostas na espera. (…) E tentar divertir-me, ir ao cinema como quem cura uma gripe, respirar fundo e aproveitar o sol de Lisboa. Tenho de aprender a ser feliz, como se a felicidade viesse em livros de receitas: estenda o seu coração numa superfície polvilhada de farinha, corte em quatro partes e reserve. Leve o seu desejo ao lume em banho-maria e reserve. Meta os seus sonhos no forno a 180° e reserve. Mergulhe a sua vontade em vinho tinto, deixe marinar durante três dias e reserve.”

(MRP)

estória§156

É bom saber que somos desejados. Queridos. Em algum lado. Por alguém. Dá uma sensação boa. Faz-nos bem. No fundo, precisamos disso, dessa sensação. Mesmo que não admitamos, porque o Ser Humano tem dificuldade em admitir isso. Em admitir que necessita de se sentir desejado. Querido. Amado. Gostado. E, em algum momento da nossa vida isso pode fazer toda a diferença e mudar-nos a disposição e o modo de estar. É como chocolate para a alma. 

deixa-me-feliz#9

. as meninas pedirem penteados e unhas pintadas
. sentir-me querida num sítio
. a C. ou a A.C. aparecerem de surpresa no gabinete com chazinho frio
. saber que gostam de mim

estória§155

Há um ano atrás não diria que estaria aqui hoje. Não diria que a minha vida fosse esta. Nunca se sabe o que pode vir. Onde poderemos estar. Com quem poderemos conviver. Aonde poderemos chegar. Novas pessoas entraram desde há sete meses atrás. Novos locais começam a ser-me tão familiares como a cidade onde vivo. Novas oportunidades profissionais vieram. Mas não foram só coisas novas que surgiram. Perderam-se coisas. Pessoas ficaram pelo caminho, numa estação qualquer em que parámos. Sítios deixaram de ser frequentados. Tempo livre reduziu. E também houve algumas mudanças. O coração mudou [não sei se para melhor ou para pior, mas está diferente porque a realidade não é a mesma]. O estilo de vida mudou [e por um lado é bom sinal, por outro é um pouco mau]. As rotinas alteraram-se. Mas também houve coisas que se mantiveram. É bom manter algumas coisas. É essencial. Mesmo que não sejam todas as coisas que queríamos que se mantivessem. Certas amizades mantêm-se. Certos locais mantêm-se. Certos pensamentos mantêm-se [e que já deviam ter ido].

O tempo, mais as oportunidades que soubermos e conseguirmos vislumbrar no dia-a-dia, mais a força de querer fazer isso – é o que faz a nossa vida mudar. Conseguem transformar as nossas vidas. Quem sabe de um dia para o outro. Nunca sabemos o que poderá acontecer amanhã. Nunca se sabe o que poderemos esperar ao sair de casa amanhã de manhã.

estória§154

Desapegar. Trata-se disso. Ela sabe-o há tempo suficiente. Mas tem dificuldade em passar à prática. É sempre mais fácil falar do que agir. Perdeu uma oportunidade. Não quer pensar que fosse “a” oportunidade. Mas, na verdade, ela pensa isso. Pensa que aquela era a oportunidade dela. Pensa que falhou. E o que mais deseja é poder voltar atrás no tempo. Que cliché. Poder fazer melhor. Poder emendar os erros que cometeu. Poder fazer outro final. De preferência feliz. Mas isto é tudo uma ilusão. Nada disto vai acontecer, mas custa-lhe acreditar nisso. Esta ilusão toda prende-a aos poucos. E cada vez mais. Repetir tudo again and again, sem fim, dentro daquela cabecinha. Ter o coração sempre sufocado com toda esta situação. Não lhe permite ser completamente feliz. Não lhe permite ser completamente livre. Não lhe permite gozar completamente todos os momentos que a vida lhe traz a cada dia. Um dia ela vai ter que mudar. Mas ela pensa que não consegue. Ela está presa. 

deixa-me-feliz#8

. jantaradas com novas e fantásticas pessoas
. ter dias em que ao chegar ao fim do dia estou contente e penso: não estava à espera que fosse assim quando acordei

estória§153

Parece que estava lá de visita. Juntamente com mais pessoas. Ele chegou e foi cumprimentá-la. Disseram ‘Olá’ e ela desviou a cara de modo a que ele a beijasse na bochecha. Ele ficou algo admirado e questionou-a. Ela encolheu os ombros. Ele virou-se e saiu-lhe da boca as palavras ‘Se fosse o outro, não fazias isso’. Ela ripostou ‘então arranja outra’ e virou costas. Foi à casa de banho. Tinha que andar em picos dos pés, o chão estava imundo. Passado um bocado ele entrou e disse-lhe algo ‘Não pode ser assim’. Ela olhou para ele, abraçaram-se e ele pegou-a ao colo. Foi um abraço apertado e que ambos estavam a precisar. Ele perguntou ‘O que tens? O que se passou?’. Ela respondeu ‘Tenho medo’. Ela tinha medo que não fosse verdade. Ele inclinou-se para a beijar e ela não desviou a cara. Entretanto ouviram barulhos vindos da sala e saíram da casa de banho. Entretanto, tudo se esfumou, como um sonho.