estória §111


As coisas nem sempre são como queremos. Os dias nem sempre correm bem. E problemas aparecem. Confusões surgem. Mal entendidos se instalam. E depois uma coisa leva a outra. E tudo fica cada vez mais confuso. Ficamos mais predispostos a ver o lado negativo das coisas. A pôr em causa tudo o que tomávamos como certo. E a nossa cabeça é um turbilhão de ideias baralhadas, desorganizadas, algumas delas disparatadas e sem lógica nenhuma. Mas que num momento assim, turvam-nos a visão e ganham lógica por elas próprias. E não somos nós, não somos o que realmente sentimos, não somos o que realmente queremos ser. Mas o tempo ajuda. Ajuda a que a tempestade passe e o mar volte a ser sereno, que bate ao de leve na areia. Dias melhores virão. Afinal davam melhorias para a próxima semana. E a Primavera está à porta. Por isso, dias melhores virão de certeza.

estória §110


E estar ali, fora da cidade, mesmo que num ambiente cheio de pessoas. Naquele momento tudo estava sereno, quieto. Apenas alguns passos se ouviam por vezes no corredor. Se olhasse pela grande janela via um jardim e árvores. Um espaço enorme sob um céu azul. Ela está a chegar. E por momentos consegui ouvir aqueles bichinhos pequenos como que a falarem. Se olhasse pela grande janela via um jardim e árvores. E nas árvores saberia que estavam pássaros, apenas pelos sons que faziam. Foi neste exacto momento que me lembrei dela. Sim, ela está mesmo a chegar. 

estória §109


É um medo enorme que me anda a atormentar os dias. O sobressalto constante. Os pensamentos de tudo e mais alguma coisa a circularem na minha cabeça. O coração acelerado que parece que vai sair do peito. E o desejo de pegar em mim e só em mim e fugir. Ou melhor desaparecer. Não pensei que crescer fosse tão difícil. Não pensei que me “atacasse” desta forma. Mais preocupações. Mais dúvidas. Mais incertezas. Mais responsabilidades. Mais o “meu eu” que fica em jogo. Mais riscos. Menos tempo. Menos confiança. Menos esperança. Menos certezas. Menos vontade. A vida realmente não é como queríamos que fosse. Só quando estamos no momento é que sabemos como estamos, o que sentimos. E sinto medo. Se fosse criança poderia ir correr para os braços de alguém e ficar ali aninhada. A sentir o calor do outro. E isso seria normal. Mas agora não posso simplesmente correr e deixar tudo para trás, como os brinquedos. Agora é preciso ficar quando a vontade é ir. Agora é preciso mostrar de que se é capaz quando não acreditamos. Agora é preciso enfrentar um mundo quando não temos confiança. Agora é preciso ser adulto quando apenas queríamos voltar a ser criança. Queria ter certezas. Queria sentir-me segura de mim. Daquilo que sou. Daquilo que consigo fazer. Daquilo que sou capaz. Mas é tão difícil. É tão difícil quando não acreditamos. É tão difícil quando estamos perante os outros que esperam algo de nós. É tão difícil quando nos podem apontar o dedo. É tão difícil quando não temos o nosso “suporte”. É tão difícil quando não sabemos o que vai acontecer. É tão difícil quando saímos da nossa zona de conforto. Sim, é difícil e dá medo.

estória §108


E por vezes temos a mania de pensar no que já aconteceu. Onde nos encontrávamos a tal dia, a fazer o quê, com que pessoas. Algo que acontece despoleta esse pensamento, vai buscar essa lembrança já tão bem arrumada, algo que pensávamos já termos esquecido. Afinal não. Afinal está lá. Ainda está lá. E isso pode ser bom. Podemos relembrar momentos fantásticos com pessoas de quem gostamos. Podemos sorrir com isso. E isso pode ser menos bom. Pode ser uma lembrança daquelas que são mesmo para ficar sempre adormecidas, sempre lá muito bem guardadas. Por vezes é melhor não pensar no que já aconteceu. É passado. Já lá vai. É melhor pensar no que há agora, no que está a acontecer agora. Onde nos encontramos agora, o que andamos a fazer, com que pessoas estamos. É nisso que temos que pensar.

estória §107


Era tão agradável ouvi-la falar dele. A sua voz calma e melodiosa, onde em cada palavra se sentia ternura. E era ainda mais uma doçura ver como o corpo dela falava sobre ele, como os seus olhos brilhavam, como o sorriso se desenhava na sua cara. Tudo queria transmitir o mesmo. Amor. E eu pensei, ‘um dia também quero falar assim de alguém’. Ela estava na outra mesa a falar sobre ele sem ele lá estar. Contava como ele lhe tinha roubado um beijo um dia e como ela fizera cara de zangada e lhe dissera que o achará atrevido. Mas no fundo, ela confessara agora que tinha gostado. Contou depois como ele era gentil e um verdadeiro cavalheiro, que lhe abria sempre a porta para ela passar, que falava de forma doce com ela, que a punha sempre em primeiro lugar e se lembrava sempre dela. Disse também que ele era muito divertido, que a punha bem-disposta e sabia ter uma boa conversa com ela e com qualquer outra pessoa. E eu pensei, ‘eu quero isto, eu quero alguém assim’. Ele voltou depois de ter ido comprar os seus jornais e deu-lhe para a mão um pacotinho. Ela abriu e sorriu, eram castanhas assadas quentinhas. Ela voltou e disse, ‘era isto que eu falava, estão a ver?’. 

estória §106


Esperar pelo melhor e preparar-se para o pior: eis a regra. 
(Fernando Pessoa)

E se uma pessoa só cumpre uma parte da regra? Se uma pessoa só espera pelo melhor e não faz mais nada? Se uma pessoa só faz isto, acontece o que acontece quando não se cumprem as regras. Como qualquer criança que fica de castigo. Como qualquer adulto que paga uma multa. Sofre-se as consequências. E não, não estamos preparados. Se tivéssemos, não haveria castigo nem multa. Por vezes é difícil. Entramos num mundo nosso, onde as coisas correm bem e as expectativas chegam, mesmo que não as queiramos ter. Elas chegam e nem pedem com licença para entrar na nossa cabeça e no nosso coração. Quando nos apercebemos já elas estão bem instaladas num cantinho escondido, com raízes já criadas e tudo. Acho que são tipo ervas daninhas. Tornam-se em ervas daninhas se não temos cuidado. Se não cumprimos a outra parte da regra. Se não nos prepararmos para o pior. Sem isso, temos que lidar com a situação. Temos que arranjar forças a dobrar e tentar arrancá-las de lá. Custe o que custar. Se elas ficarem, vão-se tornando maiores e vão conquistando mais território. E depois é ver expectativa atrás de expectativas. De uma forma tão descontrolada que aflige um coração só de pensar. Antes que isto tome estas proporções temos que arranjar forças, vindas lá bem do fundo onde pensávamos que já não houvesse. Cortar o mal pela raiz. Após isso, é tratar do terreno e pô-lo como novo. E, muito importante, prepararmo-nos para o pior e só depois esperar pelo melhor.

estória §105


Às vezes é preciso mudar. Fazer mudanças na nossa vida. Pequenas coisas diferentes no nosso dia-a-dia, na nossa casa, em nós próprios, na forma como lidamos com os outros. Pequenas coisas que fazem diferença na forma como vivemos e como vemos a vida. Podemos não pensar que essas pequenas coisas não são suficientes, porque pensamos que são pequenas demais. Mas são essas que fazem a maior diferença. Uma simples troca de móveis e umas almofadas e umas fotos novas e a casa parece outra. Acordar, espreguiçar e pensar nas coisas boas que vão acontecer e o dia já está a começar bem. Andar com um sorriso na cara, faz logo diferença para os outros que se cruzam connosco. Uma mensagem com apenas “Olá!” de alguém que gostamos e a felicidade estampa-se logo no nosso rosto. Basta um gesto, uma atitude, uma palavra, basta qualquer pequena coisa para tornar tudo diferente. Às vezes só queremos isso, só precisamos disso.