As coisas nem sempre são como queremos. Os dias nem sempre correm
bem. E problemas aparecem. Confusões surgem. Mal entendidos se instalam. E
depois uma coisa leva a outra. E tudo fica cada vez mais confuso. Ficamos mais
predispostos a ver o lado negativo das coisas. A pôr em causa tudo o que
tomávamos como certo. E a nossa cabeça é um turbilhão de ideias baralhadas,
desorganizadas, algumas delas disparatadas e sem lógica nenhuma. Mas que num
momento assim, turvam-nos a visão e ganham lógica por elas próprias. E não
somos nós, não somos o que realmente sentimos, não somos o que realmente
queremos ser. Mas o tempo ajuda. Ajuda a que a tempestade passe e o mar volte a
ser sereno, que bate ao de leve na areia. Dias melhores virão. Afinal davam
melhorias para a próxima semana. E a Primavera está à porta. Por isso, dias
melhores virão de certeza.
estória §110
E estar ali,
fora da cidade, mesmo que num ambiente cheio de pessoas. Naquele momento tudo
estava sereno, quieto. Apenas alguns passos se ouviam por vezes no corredor. Se
olhasse pela grande janela via um jardim e árvores. Um espaço enorme sob um céu
azul. Ela está a chegar. E por momentos consegui ouvir aqueles bichinhos
pequenos como que a falarem. Se olhasse pela grande janela via um jardim e
árvores. E nas árvores saberia que estavam pássaros, apenas pelos sons que
faziam. Foi neste exacto momento que me lembrei dela. Sim, ela está mesmo a chegar.
estória §109
É um medo enorme que me anda a atormentar os dias. O sobressalto
constante. Os pensamentos de tudo e mais alguma coisa a circularem na minha
cabeça. O coração acelerado que parece que vai sair do peito. E o desejo de
pegar em mim e só em mim e fugir. Ou melhor desaparecer. Não pensei que crescer
fosse tão difícil. Não pensei que me “atacasse” desta forma. Mais preocupações.
Mais dúvidas. Mais incertezas. Mais responsabilidades. Mais o “meu eu” que fica
em jogo. Mais riscos. Menos tempo. Menos confiança. Menos esperança. Menos certezas.
Menos vontade. A vida realmente não é como queríamos que fosse. Só quando
estamos no momento é que sabemos como estamos, o que sentimos. E sinto medo. Se
fosse criança poderia ir correr para os braços de alguém e ficar ali aninhada.
A sentir o calor do outro. E isso seria normal. Mas agora não posso
simplesmente correr e deixar tudo para trás, como os brinquedos. Agora é
preciso ficar quando a vontade é ir. Agora é preciso mostrar de que se é capaz
quando não acreditamos. Agora é preciso enfrentar um mundo quando não temos
confiança. Agora é preciso ser adulto quando apenas queríamos voltar a ser
criança. Queria ter certezas. Queria sentir-me segura de mim. Daquilo que sou.
Daquilo que consigo fazer. Daquilo que sou capaz. Mas é tão difícil. É tão difícil
quando não acreditamos. É tão difícil quando estamos perante os outros que
esperam algo de nós. É tão difícil quando nos podem apontar o dedo. É tão
difícil quando não temos o nosso “suporte”. É tão difícil quando não sabemos o
que vai acontecer. É tão difícil quando saímos da nossa zona de conforto. Sim,
é difícil e dá medo.
estória §108
E por vezes temos a mania de pensar no que já aconteceu. Onde nos
encontrávamos a tal dia, a fazer o quê, com que pessoas. Algo que acontece despoleta
esse pensamento, vai buscar essa lembrança já tão bem arrumada, algo que
pensávamos já termos esquecido. Afinal não. Afinal está lá. Ainda está lá. E
isso pode ser bom. Podemos relembrar momentos fantásticos com pessoas de quem
gostamos. Podemos sorrir com isso. E isso pode ser menos bom. Pode ser uma
lembrança daquelas que são mesmo para ficar sempre adormecidas, sempre lá muito
bem guardadas. Por vezes é melhor não pensar no que já aconteceu. É passado. Já
lá vai. É melhor pensar no que há agora, no que está a acontecer agora. Onde
nos encontramos agora, o que andamos a fazer, com que pessoas estamos. É nisso
que temos que pensar.
estória §107
Era tão agradável ouvi-la falar dele. A sua voz calma e melodiosa,
onde em cada palavra se sentia ternura. E era ainda mais uma doçura ver como o
corpo dela falava sobre ele, como os seus olhos brilhavam, como o sorriso se
desenhava na sua cara. Tudo queria transmitir o mesmo. Amor. E eu pensei, ‘um
dia também quero falar assim de alguém’. Ela estava na outra mesa a falar sobre
ele sem ele lá estar. Contava como ele lhe tinha roubado um beijo um dia e como
ela fizera cara de zangada e lhe dissera que o achará atrevido. Mas no fundo,
ela confessara agora que tinha gostado. Contou depois como ele era gentil e um
verdadeiro cavalheiro, que lhe abria sempre a porta para ela passar, que falava
de forma doce com ela, que a punha sempre em primeiro lugar e se lembrava
sempre dela. Disse também que ele era muito divertido, que a punha bem-disposta
e sabia ter uma boa conversa com ela e com qualquer outra pessoa. E eu pensei, ‘eu
quero isto, eu quero alguém assim’. Ele voltou depois de ter ido comprar os
seus jornais e deu-lhe para a mão um pacotinho. Ela abriu e sorriu, eram
castanhas assadas quentinhas. Ela voltou e disse, ‘era isto que eu falava,
estão a ver?’.
estória §106
Esperar pelo melhor e preparar-se para o pior: eis a
regra.
(Fernando Pessoa)
(Fernando Pessoa)
E se uma pessoa só cumpre uma parte da regra? Se uma pessoa só espera
pelo melhor e não faz mais nada? Se uma pessoa só faz isto, acontece o que
acontece quando não se cumprem as regras. Como qualquer criança que fica de
castigo. Como qualquer adulto que paga uma multa. Sofre-se as consequências. E
não, não estamos preparados. Se tivéssemos, não haveria castigo nem multa. Por
vezes é difícil. Entramos num mundo nosso, onde as coisas correm bem e as expectativas
chegam, mesmo que não as queiramos ter. Elas chegam e nem pedem com licença para
entrar na nossa cabeça e no nosso coração. Quando nos apercebemos já elas estão
bem instaladas num cantinho escondido, com raízes já criadas e tudo. Acho que
são tipo ervas daninhas. Tornam-se em ervas daninhas se não temos cuidado. Se
não cumprimos a outra parte da regra. Se não nos prepararmos para o pior. Sem
isso, temos que lidar com a situação. Temos que arranjar forças a dobrar e
tentar arrancá-las de lá. Custe o que custar. Se elas ficarem, vão-se tornando
maiores e vão conquistando mais território. E depois é ver expectativa atrás de
expectativas. De uma forma tão descontrolada que aflige um coração só de
pensar. Antes que isto tome estas proporções temos que arranjar forças, vindas
lá bem do fundo onde pensávamos que já não houvesse. Cortar o mal pela raiz.
Após isso, é tratar do terreno e pô-lo como novo. E, muito importante,
prepararmo-nos para o pior e só depois esperar pelo melhor.
estória §105
Às vezes é preciso mudar. Fazer mudanças na nossa vida. Pequenas
coisas diferentes no nosso dia-a-dia, na nossa casa, em nós próprios, na forma
como lidamos com os outros. Pequenas coisas que fazem diferença na forma como
vivemos e como vemos a vida. Podemos não pensar que essas pequenas coisas não
são suficientes, porque pensamos que são pequenas demais. Mas são essas que
fazem a maior diferença. Uma simples troca de móveis e umas almofadas e umas
fotos novas e a casa parece outra. Acordar, espreguiçar e pensar nas coisas boas
que vão acontecer e o dia já está a começar bem. Andar com um sorriso na cara,
faz logo diferença para os outros que se cruzam connosco. Uma mensagem com
apenas “Olá!” de alguém que gostamos e a felicidade estampa-se logo no nosso
rosto. Basta um gesto, uma atitude, uma palavra, basta qualquer pequena coisa
para tornar tudo diferente. Às vezes só queremos isso, só precisamos disso.
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