estória §55


"Dança é música feita visível."
*George Balanchine

Dançar torna-nos vulneráveis.
Acabamos por nos expor sem nos darmos conta. Expomos o que certa música nos transmite, expomos o sentimento que ela nos provoca.
Sem nos apercebermos tão bem, ficamos ali à mercê dos olhares dos outros, à mercê dos seus juízos de valores, dos seus pensamentos, que não podemos de algum modo controlar, a não ser que nos controlemos a nós próprios e não dancemos livremente.

estória §54


Ontem foi a Bênção das Fitas. A meta está próxima. Já a avisto. Uma etapa está prestes a acabar. Mais uma etapa na minha vida. E passou tão rápido. O tempo voa e não se dá conta. Isso mete-me medo. Muito medo. Fico a pensar se terei aproveitado bem este tempo. Pois não há maneira de ir para trás e refazer tudo. Não tenho essa oportunidade. E assim fico a pensar se terei feito tudo o que queria e o que gostava. Mas não sei a resposta a isso. Não consigo ver se faltou alguma coisa. E tudo isto mete-me um certo medo. Foram 3 anos em grande! Tenho a certeza. Mas poderiam ter sido melhores? Não sei. Mas sei de muitas outras coisas. Olho para trás e sei o que fiz. O que aconteceu. Quem conheci. O que vivi. O que senti. Sei quem deixei que entrasse na minha vida. Sei quem me fez sorrir. E quem me fez chorar. Sei dos bons momentos. E dos menos bons. Sei o que aprendi. Sei tudo isto. E o coração fica assim apertadinho. Conheci realmente gente fantástica. E que irá ficar para sempre na minha vida. Conheci gente não tão fantástica. E que por motivos diferentes também ficarão na minha vida. "Há gente que fica na história da história da gente". E todos eles me ajudaram a crescer. Contribuiram para o que sou hoje. Deixaram um bocadinho deles em mim. E espero que tenham levado um bocadinho de mim com eles. A vida é isto. Tão só. Ir pelo caminho que de algum modo se escolheu. Observar o que nele se encontra. Pessoas. Coisas. Oportunidades. Absorver isso. Retirar de lá algo. Aprender. Viver. E continuar a caminhada. Agora continuo a caminhar. E vou diferente devido a isso. Vou diferente por dentro. Levo mais bagagem na alma. Aprendi coisas novas. Reformulei algumas que pesava estarem certas ou serem as melhores. Fiz amizades novas. Fortaleci as que já tinha. Mas agora vou continuar a caminhar. A meta está quase ali. E sim. Sinto-me cansada. Sinto-me farta. E quero chegar rápido. Mas também estou ansiosa. O que virá a seguir? Eu não sei bem ainda. E isso também me traz medo. Não me sinto confortável sem ter a certeza do que vem a seguir. E faz-me ficar inquieta. Nervosa. Com medo. "E quando à tua frente se abrirem muitas estradase não souberes a que hás-de escolher, não te metas por uma ao acaso, senta-te e espera. (...) Fica quieta, em silêncio e ouve o teu coração. Quando ele te falar, levanta-te e vai para onde ele te levar". Mas estou a contar com a minha bagagem. As coisas "velhas" que já cá tinha e as novas. Para me ajudar no novo caminho que irei trilhar. Pois tudo fica mais fácil quando se tem alguém ao lado. Alguém amigo. Que nos apoia. Compreende. Abraça. Dá miminhos e beijinhos. Sorri connosco. Ampara as quedas. E trata das feridas. Tudo fica mais fácil quando temos ao nosso lado aqueles de quem gostamos. E é isso que me traz alguma paz à alma. Algum conforto. Como se fosse uma luz de presença. Espero ter sempre assim pessoas à minha volta. Que estas estejam sempre de algum modo presentes na minha vida. E que encontre novas pessoas no caminho que me espera. Que venham novas oportunidades. Novos momentos. Novas alegrias e tristezas. Novas vitórias como esta. E também erros como os que fiz no passado e com os quais se aprende. Que haja muito mais de muitas coisas. Obrigada a todos os que encontrei no meu caminho. Que partilharam alguns passos comigo. Por motivos bons ou menos bons. Por momentos bons ou menos bons. Obrigada.

estória §53


Dói. Dói muito. E faz(es)-me ficar triste. Queria tirar tudo de mim. Tudo o que tenho cá dentro sobre isto. Há coisas que não devem ser (re)encontradas. E isto é uma delas. Para quê que abri aquela caixa velha com tanto pó do passar dos anos? Para quê que vi o que estava lá dentro? E para quê que senti isto? Agora dói. E agora só quero tirar isto. Mas não sei como. Quero que passe rápido. Quero esconder outra vez a velha caixa. E quero não saber onde a pus. Que fique lá mesmo no fundo do quarto. Tão fundo que não a veja. Que não avistar nem um canto que seja. É isto que quero. Mas não consigo. Preciso de algo que me distraia. Para que possa arrumar a tal caixa sem dar conta de onde a arrumo. Não quero mesmo mais olhar para ela. Nem que ela olhe para mim. Não quero que os nossos olhares se cruzem. Não quero sentir aquele silêncio entre nós. Fico triste. Sinto-me triste. Triste e ignorada. Por isso é que quero arrumar o raio da caixa. Só foram coisas más que lá estavam. E já não quero mais coisas más. Não aguento.
Quero esconder outra vez a velha caixa. Preciso. Preciso mesmo.

estória §52


dreams keep me alive

Não ando nem desando. Parece que estou parada. Não sei que fazer. Que dizer. Simplesmente todo o meu eu parou. A minha cabeça anda às voltas. Contudo não saio daqui. Não deixa este assunto ir embora. Fiquei presa a ele. Aquele momento. E agora parece que não sou capaz de viver sem pensar nisso. Sem lembrar isso. Como se pode ficar tão preso a algo? Queria andar comigo e com a minha vida para a frente. Deixar para trás o que não interessa. Porque sim. Isto não interessa mais. Apenas foi algo que aconteceu e que guardo lembrança. Mas mais nada. Pelo andar da carruagem, mais nada. E porque não consigo eu fazer isto? Seguir para a frente é que é o caminho. Eu sei que sim. Mas ao mesmo tempo tenho os pés presos a este chão. E a cabeça sempre a matutar no mesmo. Quero que isto vá de vez. Só quero a lembrança. Nada mais. Por favor. Preciso de deixar isto aqui e voltar para o meu caminho. Preciso de outros sonhos para me manter viva e a caminhar.
Este só me faz ficar parada.       

estória §51


Na vida, o mais importante são somente os momentos, no verdadeiro sentido da palavra. Tudo "o depois" não interessa (não devo atribuir significado). Cada vez acredito mais nisso. E, se por um lado, acho que é mau, por outro, acho que nem é assim tão mau. Porque se deve aproveitar os momentos e dar-lhes significado. Um momento é um breve período de tempo, um instante, um tempo ou ocasião em que alguma coisa se faz ou acontece. É no momento que temos e devemos estar. Dure ele segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses ou anos. Porque um momento pode durar muito tempo. O tempo que acharmos que esse momento tem, precisa. O tempo que lhe quisermos dar. E nesse espaço de tempo temos que estar lá a 100%. Cabeça, tronco e membros. Coração e alma. Tudo de nós ali. Naquele tempo. Só isso importa. Porque depois disso acontece alguma coisa que interrompe esse momento e deixamos de o ter, acaba. Por isso, a nossa vida não é só um momento, mas vários, muitos. E, digo mais uma vez, é isso que temos que guardar, que temos que dar significado. O depois não interessa. As interrupções entre esses momentos não são importantes. Se fosse faziam parte do momento. Cada vez acredito mais nisto. E cada vez tenho mais provas disto. Cada vez tenho mais momentos na minha vida. Momentos cada vez mais pequenos. E cada vez mais intervalos. Cada vez intervalos "mais maiores". E isto faz-me acreditar cada vez mais nisto de só os momentos valerem e terem importância, significado. Porque tudo o que faz acabar o momento, tudo o que é intervalo só me faz sofrer, chorar. Dói. Dói mesmo. Vou mesmo lá ao fundo. Bato lá no fundo e torna a doer. Assim, agarro-me a momentos passados. Instantes felizes. Tempos bons que funcionam como âncora e bóia. Que me mantêm à superfície enquanto penso neles. Enquanto acredito neles, à espera que o intervalo acabe e volte um momento novo. Algo a que atribue significado. Algo que signifique algo para mim. Algo que me encha. Momentos. A vida de qualquer um de nós é isso. Uma colecção de momentos. No fim, uma curta-metragem de momentos, onde se cortam todos os intervalos. Fica o essêncial. Aquilo que tem significado para nós. Aquilo que nos constitui.
Cada vez acredito mais nisto.

estória §50


A little time always sets things right.
*

É disso que eu preciso. De tempo. Das coisas ficarem bem para o meu lado. Há confusão a mais na minha vida. Na minha cabeça. Tudo está de pernas para o ar e não creio que sou assim tão forte para aguentar. E o vento vai levar tudo com ele. Preciso que as coisas acalmem. Que tudo volte ao que era à uns anos atrás. À uns anos valentes. Preciso de respirar profundamente com os olhos fechados e imaginar que tudo está bem. Que esta tempestade está quase a passar. Que é só mais um tempo. Mas preciso mesmo de saber que é só mais tempo. E depois tudo vai ficar bem. Calmo. Vou ficar melhor comigo mesma. Esquecer as coisas estúpidas que têm acontecido. Esquercer quem tenho que esquecer. E seguir em frente de cabeça erguida e sorriso na cara. Porque pior que isto acho que não deve haver muito mais. O que sinto. Não poder fazer nada. Não saber o que fazer ou dizer. Sentir-me pequena a precisar de um abraço forte e de um colo. Um beijo na testa e ouvir que isto vai passar pois é só um sonho mau. E que vai passar e eu vou-me esquecer daqui a uns dias. Queria apagar certos dias da minha vida. Certos pensamentos e sentimentos. Preciso que a vida me dê tempo para as coisas voltarem a ficar bem. Para eu ficar bem. Sentir-me bem. E depois preciso de mais coisas. Mas para já chega-me o ficar bem e sentir-me bem. Preciso de tempo só para isso.
E seguir em frente de cabeça erguida e sorriso na cara.

estória §49


Deve ser mais corajosa. Quando a vida não acontece da forma que queremos, regra geral não é sinal de que devemos desistir; é um sinal de que temos de ser mais corajosos. (...) Não é repetir as mesmas coisas vezes sem fim, mas fazer algo radical, valente, atrevido e novo.
*Menna Van Praag

Normalmente quando te deparas com uma dificuldade, com algo que te abala e que te faz sentir incapaz, tens duas alternativas. Ou isso te abala mesmo. Te deita abaixo. E desistes. Ou faz exactamente o contrário. Dá-te mais garra e vontade para continuar e não desistir. Há pessoas que são mais pela primeira. Há outras que são mais pela segunda. Devíamos de ir sempre pela segunda. Vemos um obstáculo e não deviamos de baixar os braços. Vemos que algo é dificil e não deviamos simplesmente dizer 'não sou capaz, não consigo'. Tens de ser capaz. Não podes ficar para aí perdida. A ver os dias simplesmente a passarem uns atrás dos outros. A acomodares-te. Não te podes acomodar. Tens de reagir. Pensar que consegues mudar a situação. Arranjares soluções. Arriscares. Sim! Arrisca. Por favor. Não podes continuar assim. Faz-te mal. A ti e aos que gostam de ti. Porque eles também sofrem por ti. Ficam preocupados. Por isso, faz qualquer coisa. Tenta mudar a situação. Não podes ficar pior do que estás, pois não? Pensa. Não podes. E não tens nada a perder. Arrisca. Faz algo novo. Atrevido. Corajoso. Atreve-te e ganha coragem. A sério. Eu estou do teu lado para ver o resultado. Para ti.
Atrevido. Corajoso.